| | Paulo Francis por ele mesmo
Entrevista publicada na edição n. 17 da Revista Status. Extraída do livro
"Paulo Francis - uma coletânea de seus melhores textos já publicados",
da Editora Três Ltda, em 1978. (trechos)
Status - Por que esse longo exílio nos EUA?
P.F. - Eu não sou um exilado. Recebi até uma proposta de um exilado
brasileiro, um autêntico exilado, de colaborar numa coletânea de memórias
de exilados, mas o fato é que sou um expatriado, alguém que escolhe viver
num país estrangeiro, mantendo, porém, a identidade nacional própria,
enquanto que o exilado é forçado a morar fora, ou, num segundo sentido, é
uma pessoa que se integra numa nação e cultura diferentes. Nenhuma das
duas definições se aplica a mim.(...)
Vou ao Brasil frequentemente (...) Vivo nos EUA porque nada tenho de
melhor para fazer no Brasil. (...) No estrangeiro, apesar de escrever sobre
temas, digamos, internacionais nunca escrevi tanto sobre o Brasil, nunca
pensei tanto no Brasil, nunca procurei tanto entender o Brasil.(...) Eu acho
mais fácil entender o Brasil dos EUA do que no Brasil.
Status - Há um boato que você subempreita, porque escreve em tantas
publicações.
P.F. - Há outro melhor, aqui, que, se colocando um níquel de 25 cents na
minha boca, sai um artigo. Mas, lembre-se, eu não sou um repórter, sou um
comentarista. Em suma, o que escrevo, embora envolva o contato com
pessoas, entrevistas, etc., é, em geral, minha opinião sobre acontecimentos.
E tenho muitas opiniões sobre todos os assuntos. Como não acredito em
rigorosamente nada, me interesso por tudo.(...)
Status - E o jornalismo, você acha uma arma?
P.F. - Depende de quem faça jornalismo. Em geral, jornalismo é um produto
de consumo. Eu próprio produzo bastante para puro consumo, se bem que
desafio quem não encontre em qualquer trabalho meu, por mais banal o
tema, uma crítica política e ética. (...) Quando fui crítico de teatro, meu
início, o que eu queria era mudar o teatro brasileiro, e não emitir boletins de
consumo para eventuais fregueses-espectadores. Na revista Senhor, a
original, de que fui um dos editores-fundadores, meu negócio era criar uma
revista de cultura viva, no Brasil, de contracultura, quer dizer, contra a
cultura oficial, acadêmica, autocongratulatória. E na Última Hora, com
Samuel Wainer, até 1964, eu queria mudar o Brasil. Não é que eu não
aprecie os prazeres da vida (...)ou seja, "prestígio, poder e dinheiro".
Aprecio e muito. Sou um elitista cultural. Gosto de autores difícies, de
literatura a música, das melhores roupas, dos melhores quadros, do melhor
uísque, do melhor vinho, etc., e que maítres me reconheçam na porta dos
restaurantes, me arranjando mesa na hora em que eu entrar.(...)
Status - Mas nos EUA você é desconhecido?
P.F. - Exatamente. É um dos preços que pago para completar minha
educação, a perda de status. Aqui, sou apenas mais um jornalista
estrangeiro, com acesso reduzido à imprensa americana (publiquei alguns
artigos), e isso já me deprimiu bastante, principalmente nos primeiros anos.
Perda de status dói paca, para usar uma expressão pasquiniana. Em
compensação, como sugeri, hoje tenho uma visão de mundo completa, quer
dizer, que eu considero completa e que duvido (não é impossível) que se
altere nos essenciais. (...)
Eu tive muita sorte como jornalista, como já disse. Quem me deu minha
primeira chance foi o Hélio Fernandes, na falecida Revista da Semana, que
ele dirigiu um tempo. Daí fui para o Diário Carioca. Foi um jornal
tecnicamente revolucionário, que terminou com o lero-lero das reportagens
intermináveis, em que o repórter era a estrela, e não o assunto. Na Senhor,
que foi criação de editores da Delta, Simão e Sérgio Waissman, e que teve
como diretor Nahum Sirotsky, pude fazer o que eu mais queria: publicar
ficção moderna, artigos sobre serviços que não fossem meros "reclames",
como se dizia antigamente, introduzir uma certa franqueza sexual, polêmicas
sobre os mais variados assuntos. Senhor criou o clima que permite que hoje
a nossa Status exista. Foi um fracasso comercial na época, mas criou uma
imagem, uma idéia, um exemplo. Parece brincadeira lembrar que Clarice
Lispector, antes de Senhor, era conhecida apenas por uma coterie de
intelectuais, ou que Guimarães Rosa encontrou lá o único veículo
semipermanente para a ficção dele, que todo mundo celebra, como a de
Clarice. Depois Última Hora. Não há dono de jornal mais injustiçado neste
país nosso que Samuel Wainer. Ele criou o primeiro jornal popular no
Brasil. Nunca o perdoaram. Jornal popular no Brasil, antes e depois de
Samuel Wainer, é jornal de crime.
Participei ainda de outra revolução, a de O Pasquim. É um assunto chato de
discutir em público, porque sou acionista do jornal, um jornal que só tem
vedetes, perto das quais Elizabeth Taylor é a própria modéstia e abstenção,
mas O Pasquim foi criado pelo Jaguar, aliado ao entusiasmo e capacidade
promocional do Tarso de Castro. Nessa frase, para vosso governo, já criei
vários inimigos, ou reforcei alguns, quero, porém, ser franco e dizer o que
penso, sem desmerecer a colaboração de nenhum dos outros gênios
pasquinianos, presentes, passados e futuros. O Pasquim foi uma grande
revolução de linguagem, continuou a obra do Diário Carioca. Pela primeira
vez, um jornal inteiro escrito de maneira coloquial, usando a linguagem
riquíssima que nosso povo cria e que é ignorada pelos acadêmicos e pela
maioria da imprensa. (...)
Status - Você nunca teve decepções?
P.F. - Duas horríveis. A primeira foi a revista do Diner´s que editei durante
um ano, quando os donos desistiram de continuá-la (era oferecida
gratuitamente aos portadores de cartão Diner´s, como promoção), que tentei
fazer um misto de Pasquim e Senhor, dentro dos modestos recursos
disponíveis. E Visão. A figura de Said Farah. Aí está um homem
politicamente liberal, economicamente conservador, uma excelente figura
humana, ele e a mulher dele, Raymundinha, que animava igualmente a
revista. Essa é a minha maior dor-de-cotovelo. Em Visão se criava a
primeira revista liberal no Brasil, uma revista dirigida à elite econômica do
país, favorecendo o ponto de vista dominante, em economia, dessa elite,
porém propondo uma reforma política liberal e, em economia, mantendo o
mesmo liberalismo, isto é, dando opiniões contrárias às oficiais. Farah teve
problemas econômicos e vendeu a revista a um outro grupo, cujo approach
é diferente. Foi o fim de um grande experimento, inédito, em essência, até
hoje na imprensa. Conservador no Brasil é, em geral, um reacionário. O
conservadorismo liberal de The Economist é que Farah estava criando.
Foi-se.
Status - Mas se no início você fez tanto nome como crítico de teatro, por
que largou?
P.F. - Talvez eu ainda volte. Já recebi uma boa proposta. Não, o negócio
não é bem esse. Eu tinha voltado dos EUA, depois de dois anos lá, ou
melhor, aqui, e cheio de idéias sobre o teatro, que eu queria dirigir e até
representar. Achei o teatro brasileiro uma joça. Dois amigos meus, o
dramaturgo Francisco Pereira da Silva e o, hoje, diretor de teatro na Bahia,
João Augusto, eram críticos, o primeiro do Diário Carioca, João da
Tribuna da Imprensa. Uma noite na Gôndola, depois da estréia de um
abominável Volpone, pelo Teatro Brasileiro de Comédia, estávamos os três
lá, ponto de gente de teatro, quando começaram a chegar os atores da peça.
Foram cumprimentados afavelmente pelo Chico Pereira e João. Eu perguntei
a eles: mas vocês não detestaram o espetáculo? Eles responderam que sim,
mas que, no Brasil, não valia a pena abrir polêmica (palavras proféticas,
digo eu, em 1975). Fiquei furioso e insisti (para que baixassem a ripa no
espetáculo. Eles me fizeram uma proposta: que eu me tornasse crítico de
teatro e desse o exemplo, que eles seguiriam. Dias depois, fui procurar o
Hélio Fernandes, na Revista da Semana, a quem eu conhecia ligeiramente,
via o Millôr Fernandes. Me apresentei, disse que não tinha experiência, o
Hélio me cortou rápido e me perguntou se eu queria realmente fazer uma
seção de teatro pras cabeceiras. Respondi que sim e fechamos. O Hélio
tinha transformado a Manchete de fracasso em sucesso e, agora, queria fazer
o mesmo pela Revista da Semana. Talvez até conseguisse, se não tivesse
meses depois pedido demissão. Só que a Revista da Semana não tinha
recursos. Ou melhor, dispunha de um recurso poderoso: a inteligência, a
audácia e a energia do Hélio.
Falam que escrevo demais. O Hélio escrevia praticamente a Revista da
Semana inteira, fora uma ou outra seção, usando vários pseudônimos.
Bem, comecei a baixar o sarrafo em tudo o que achava ruim, e o Chico
Pereira e João Augusto seguiram na mesma batida. Falando nisso, na época,
eu levava uma semana compondo um artigo. Só quando passei a crítico
diário do Diário Carioca e, por uns meses, crítico de cinema do Jornal do
Brasil é que adquiri a experiência e confiança. So se aprende a escrever
escrevendo diariamente. Não há outra fórmula. Fizemos, voltando ao teatro,
uma ligeira revolução de gosto. É verdade que foi uma coincidência de
vontade individual e de uma era. Queiram ou não, o governo Juscelino
Kubitschek foi um dos períodos mais agradáveis da história brasileira, não
só pelas liberdades públicas, indispensáveis, claro, mas, pelo otimismo,
pelo fomentar de esperanças do presidente, que nos contagiou a todos, ao
menos, a meus amigos profissionais. Tinhamos a impressão de que tudo era
possível no Brasil daquela época. Hoje me acho ingênuo ao imaginar que,
fazendo crítica de teatro a sério, fosse mudar séculos de atraso cultural e
econômico, mas sem esse tipo de expectativa louca nenhum país ganha
identidade e se encontra. Esse espírito empreendedor continuou até 1964 e
chegou mesmo ao paroxismo, se já tingido de desespero, no "intervalo" de
1964 a 1968. Pense só no Cinema Novo, no Teatro Oficina, no Teatro de
Arena, no Chico Buarque, foi uma pequena renascença nacionalista. Uma
estréia de teatro de Dias Gomes, Guarnieri, Vianinha, Millôr, ou qualquer
dos nossos autores sérios, era um acontecimento cultural, a que comparecia
gente de toda espécie, de intelectuais a políticos, à grã-finagem.
Status - Mas não era esnobismo tentar impor critérios europeus e
americanos a artes brasileiras?
P.F. - (...) A influência estrangeira na minha família era muito forte, logo eu
não me dava conta de Brasil, no sentido em que entendo hoje a palavra. E,
na minha infância, nos anos 40, começou a enxurrada cultural americana
sobre nós, principalmente em cinema e música. Perdemos contato com a
Europa Ocidental, durante a guerra. Viamos o mundo pelo prisma de
Hollywood, dos Sinatras e Bing Crosbys. Tudo isso, que inclui prazeres por
certo, resultou da minha parte numa alienação quase que absoluta.
Problemas sociais e políticos simplesmente não me passavam pela cabeça.
Meu primeiro gosto de Brasil foi quando viajei, como ator, com o Teatro do
Estudante, de Paschoal Carlos Magno, pelo Norte e Nordeste. Lembro que
fiquei estarrecido ao ver aquelas fileiras de gente morrendo de fome, em
Fortaleza, Ceará, durante uma seca. Essas coisas inexistiam em Botafogo,
Copacabana, Ipanema e Leblon, que era por onde eu andava.
Como crítico de teatro, comecei exigindo que todo mundo virasse Old Vic
de Londres, com um Shakespeare à altura, e terminei um escandaloso
propagandista do autor nacional, do diretor nacional, da temática nacional,
acima de tudo. É uma lição que muita gente precisa reaprender no Brasil de
hoje e, no caso da juventude, aprender.
Status - E como você concilia isso com a vida em Nova York?
P.F. - Nova York é uma síntese política e cultural do mundo moderno. Tem
Terceiro Mundo nas favelas de negros e portoriquenhos, a alta cultura das
sinfonias e das grandes editoras, um sistema de comunicações incomparável
da CBS-TV ao New York Times, a riqueza absurda de Wall Street, os
sofrimentos que levam a sentimentos fascistóides de uma classe média
amedrontada, uma confusão étnica, única no mundo, uma sujeira, uma
violência, uma grandeza, uma civilização, incomparáveis. Na posição de
observador a que fiquei restringido, é o melhor ponto possível. E tenho
grandes afinidades com a cultura americana. Todo dia abençôo Thomas
Jefferson por ter redigido a Primeira Emenda da Constituição dos EUA que
proibe taxativamente o Congresso de fazer leis que atentem contra a
liberdade de expressão. É possível imaginar um outro país que, em guerra
sangrenta no Vietnã, tivesse pelo menos 1/3 da população violentamente
contra e milhões de pessoas nas ruas protestando? (...)
Status - Assuntos pessoais.
P.F. - Sou um homem bem casado, um tranquilo habitante, que passa a maior
parte do tempo escrevendo. Isso me cansa mas me agrada. Sou
profundamente deprimido, a doença do século, sei, mas nem por isso deixa
de ser chato. Se não escrevendo, em suma, produzindo, só me sinto à
vontade no mundo, temporariamente, sob o efeito de espíritos, como diziam
antigamente. Sofro de accidie, para usar a palavra bacana, um senso
inerradicável de solidão, futilidade e desespero. A culpa não é de ninguém,
pelo contrário nem sei como retribuir o amor dos poucos, porém certos, que
gostam de mim. O problema é meu. Eu tenho um hábito, talvez produto do
orgulho típico dos deprimidos, de que experimento, em microcosmo, o
espírito da época. Nisso, não há como negar, estou atualizadíssimo. As
violências e crueldades da nossa era não têm paralelo histórico e nunca,
talvez, tenha existido tão pouca esperança, ou saida sequer, intelectualmente
aceitável para os céticos. E, se sou alguma coisa, sou um cético.
Status - Mas você gosta do seu trabalho?
P.F. - Eu gostaria de escrever um artigo por mês para Status, que não fosse
entrevista, porque ando um tanto cheio de celebridades, e uns dois artigos
por semana, um num jornal do Rio e outro, em São Paulo, e, claro, ganhar 1
milhão de dólares ao mês. Já que isso não é muito viável num futuro
próximo, vou levando. Sempre que escrevo, dou tudo que tenho. Nunca
escrevi uma linha mal cuidada na minha vida, de que eu tivesse consciência.
E respeito todo trabalho profissional bem feito, não importa o tema.
Jornalismo, claro, como tudo, exige o máximo de liberdade. Sem esta, a
vida nunca será plena para ninguém, opressores ou oprimidos. Nem por isso
confunda minha depressão, que é espiritual, com desânimo. O negócio é
tentar sempre. Eu gostaria de fazer um bom jornal, editá-lo, digo, usando a
brevidade do Wall Street Journal, a técnica de editar do Sunday Times e o
espírito do Le Monde, como modelos para ponto de partida. (...)
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